Quinta-feira, 1 de Março de 2007

Um romance tórrido em terras beirãs

 

1ª Parte
 
Almeida Garrett, desiludido da vida pública e política, decide passar uns dias na província, nas Caldas da Felgueira.
Félix e Jakiná, nome adoptado recentemente pela servente Joaquina, acompanham a velha e hipocondríaca tia de Canas de Senhorim, Dª Maria dos Prazeres de Vilharigues, a passar uns dias nas termas.
Durante o repasto da noite, tão sabiamente confeccionado pela gentil e rosadinha Dª Felismina, Garrett entra no salão e de imediato pousa o seu tristonho olhar nos doces olhos castanhos de Jakiná.
Logo ali, e nesse preciso momento, Garrett sente o seu sangue já cansado fervilhar dentro das veias. Na sua cabeça, amorosos versos se constroem, assim como páginas e páginas de sonetos carinhosos, próprios para elevar a mais fria alma ao paraíso.
Na mesa de Jakiná, José Félix e Dª Maria dos Prazeres é servido um aromático cabrito à Lafões e, perante tal iguaria, Jakiná desce a sua ruborescida tez para o prato recheado de batatinha assadas e coradas. Pretexto que serviu para Garrett embebecido namorar os doces contornos do rosto da donzela.
Tão absorto estava neste contemplar que Garrett nem se apercebe que lhe fora colocada uma malga com duas conchas de caldo de unto, receita afamada das beiras.
De quando em quando, seus olhares lânguidos tocavam-se por entre o fumegar do caldo. Ai Jesus!…
O rubor permanecia nas suas faces.
No final do dia, no aconchego dos seus aposentos, Almeida Garrett custou a entrar no sono. A imagem de Jakiná, iluminada pela chama viva da lareira, preenchia todo o seu pensamento. Sentia-se inquieto e algo de imoral se desenhava na sua mente. Era enorme a sua ânsia de querer estar junto a ela, deleitar-se com a sua voz melodiosa e doce, sentir o seu perfume e ouvir o roçar das suas vestes.
 
2ª Parte
 
Acordou atormentado ainda o sol não tinha nascido, arranjou-se e saiu para que o fresco da manhã pudesse dissipar as imagens pecaminosas que o açoitaram durante o sono, mas que o haviam deleitado.
Quando regressa do seu passeio matinal, surpreende-se ao encontrar o objecto da sua inquietude e, provavelmente, da sua perdição, distraída pousando o seu olhar enlevado na mais bela rosa vermelha que descansava suavemente no seu colo aconchegante.
De forma envergonhada, coisa estranha para um homem tão mundano, lançou-lhe um olhar profundo de desejo e paixão ardentes.
Ela enrubesceu, novamente seu coração como louco palpitou e deixou que Garrett adivinhasse que também se inquietava na sua presença.
Ah, coração vadio! Ah coração vagabundo!…
Nesse preciso instante, e num impulso arrebatado, Almeida Garrett solta o melhor da sua prosápia lírica e recita o seu poema:
  
A rosa
É formosa
Bem sei.
Porque lhe chamam – flor
D'amor,
Não sei.
 
A flor,
Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma, – dor
Na cor
O lírio.
 
Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa;
Se é de beleza – mor
Primor
A rosa:
 
No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: – cor
E ardor
É o meu.
 
A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.
 
Nunca este poema tivera tão desejado impacto, nunca estas palavras escritas em momentos de profunda reclusão pessoal e introspecção tiveram tão formosa depositária.
A sua voz vibrava em cada sílaba, em cada verso. Todo o seu sentimento era derramado em cada palavra que acompanhava de olhares amoráveis e meigos. E ela… meu Deus!, deixava-se embevecer com tão doces e inebriantes palavras e com o seu olhar que a transportava muito para além do que é possível e entendível para uma senhora tão recentemente na condição de noiva. Sente-se perfeita e literalmente devorada pelo mui acalorado tom declamatório do poeta que abalançou-se entrar em seu coração sem pedir licença.
José Félix, que nesse momento se acerca de tão apaixonado casal, sente-se incomodado. Já na noite anterior fervilhava no seu íntimo a dúvida, a suspeita …
Seu ser queimava de desconfiança. Como poderia ser?!!
Ainda há tão pouco noivara essa mulher por quem sempre nutriu o mais dos sublimes sentimentos, também pelo recheado dote. Como poderia ser???
Ahhh!… Este meu sofrimento!
Ahhh!… Como poderão os céus deixar que tamanho mal aconteça!
E claro, apanha sua amada ruborizada, lançando olhares lânguidos àquele que atrevidamente tomara o seu lugar.
Um momento de profundo constrangimento, os três não conseguiam disfarçar o que lhes ia na alma. Salvos pelo cumprimento cortês de um casal que passava, José Félix convida Garrett para se juntar a eles na ceia dessa noite.
Na cabeça de Félix, um único pensamento tomava forma. De uma vez por todas, confirmar as suas suspeitas e lançar sobre aquele infame a sua fúria e raiva. Não deixaria que este levasse a melhor… Qual quê??? Lançar-se-ia sobre ele com a mais pesada das cóleras. Um só …. Sim! … Um só ficaria vivo.
 
3ª Parte
 
Para Garrett o dia pesarosamente decorreu, as ânsias de voltar a estar junto daquela pela qual o seu coração se enamorou eram enormes e penetrantes. Todo o seu corpo tremia e a sua alma irradiava uma alegria estonteante. Queria estar, novamente, perto dela, respirar o mesmo ar, inebriar-se com o seu perfume, escutar a sua voz cristalina e melodiosa.
Félix idealizava cenas maquiavélicas. O seu desejo de dar forma à sua “doce” vingança era gigantesco. Jakiná, por sua vez, sonhava ardentemente poder partilhar a mesma mesa com aquele que, já no seu íntimo, era o seu amado cavaleiro. Como poderia desejar ela outro homem que não fosse aquele que tão recentemente noivou, mas quiseram os deuses que assim fosse! Então, como calar tão ardente paixão?
Já José Félix se encontrava no salão de repasto com sua adorada noiva, quando Garrett se acercou e delicadamente salvou os seus anfitriões. Notória foi a agitação sentida por Jakiná, que prontamente escondeu ao deixar cair o seu olhar sobre a mesa tão ricamente adornada.
Enquanto era servida a refeição preparada pela Dª Felismina, uma conversa de circunstância instalou-se entre os comensais. Jakiná deliciava-se com toda e qualquer uma das frases proferidas por Garrett, aspecto que não passou despercebido a José Félix.
Um saboroso Bacalhau à Lagareiro emanava a sua fragrância que aguçava o apetite, mas nem Jakiná nem Garrett mostraram ter fome e não se deixaram tentar por tão apetitoso pitéu. Antes pelo contrário, não fora a proximidade de José Félix, poderia dizer-se que naquele cenário apenas duas, e só duas pessoas existiam, Almeida Garrett e Jakiná.
A ira cegava e envenenava o espírito magoado de Félix. Seu olhar não se desprendia do mais pequeno movimento que pudesse existir entre os dois traidores e, bastou, sim bastou apanhar uma troca de olhares embevecidos para que todas as suas suspeitas se confirmassem. Num tom grave e lançando um olhar demasiado circunspecto sobre Garrett, levantou-se e desafiou o seu rival para um duelo de pistolas a realizar-se na manhã seguinte, antes do nascer do sol.
“Infame, escolha o local e a sua testemunha, eu serei acompanhado pelo General Lemos, meu antigo patrão. Lá estaremos, amanhã ao nascer do sol!”
Com estas afirmações cortantes enregelou o coração de Jakiná, deixando que no ar pairasse uma grande consternação.
“Céus! como posso viver este momento? Como poderá o meu coração quedar-se? Que tormento!!! Que suplício!!! Que desgraça!!! Como poderá Félix desejar tamanha flagelação?”, lamenta-se Jakiná.
Seu coração dividia-se entre o dever de noiva e o desejo ardente de poder desfrutar de tão intenso sentimento que acabara de nascer.
 
4ª Parte
 
Noite atormentada! Nos espíritos desassossegados, imagens de puro suplício sobrevoavam.
Era grande a amargura que Jakiná sentia. Contorcia-se na cama e teimava em não adormecer.
Félix gozava da mesma inquietude, mas todo o seu corpo entorpecido pela cólera destilava fel.
Almeida Garrett deambulava pelo quarto e a sua cabeça queimava e estalava na procura de uma forma de resolver tão mal engendrada contenda.
E foi assim que, nessa triste e leda madrugada, duas almas martirizadas se deslocaram para um local ermo, nos arredores de Póvoa de Santo Antão.
José Félix, acompanhado pelo General Lemos, trajava uma capa preta como forma de afastar o frio e, quiçá, o horror. Como se tal fosse possível! Almeida Garrett que, à pressa, pedira ao seu amigo Brás Ferreira que o acompanhasse em tão triste missão, chegou com um ar cansado de desalento.
Sr. Anacleto, homem respeitado por todos e que presidia ao duelo, começa por elucidar os duelistas das regras de conduta a respeitar e, nesse instante, o peito de Garrett contrai-se numa dor alucinante. Não por temer pela sua própria vida, mas por imaginar que não mais voltará a ver a sua amada Jakiná.
José Félix de semblante carregado lança olhares vidrados de raiva ao seu opositor. Seu pensamento era unicamente aniquilar o infame que ousou desejar sua amada.
Deu-se cumprimento aos preceitos do duelo e à voz rouca e envinagrada do Sr. Anacleto, os dois duelistas voltaram-se e despejaram a arma que empunhavam. Uma nuvem de fumo saída do cano das armas pairava no ar. Garrett e Félix permaneciam em pé e o Sr. Anacleto e respectivas testemunhas olhavam atónitos a cena surreal. Nesse instante, Félix deixa-se cair de joelhos e um esgar de dor desenha-se no seu rosto.
Viveram-se momentos de profundo silêncio e de tétrica espera.
Vivo, mas sangrando abundantemente do flanco esquerdo, Félix jazia no chão e prontamente foi assistido pelo Sr. Gudofredo, curandeiro de Nelas e assistente neste trágico desaguisado.
Garrett chegado à pousada foi recebido de braços abertos e em declarado pranto pela adorada Jakiná. Foi um abraço arrebatador, seus corpos estreitaram-se aplacando tamanha angústia vivida e o desejo, antes reprimido, é agora lançado em vagas de genuína paixão. Seus corpos estremecem ora de frio, claro!, ora de ardente sentimento.
 
5ª Parte
 
O que aconteceu a José Félix pouca gente sabe, mas corre pelos salões de Lisboa que é companhia constante da Viscondessa da Luz na Marginal de Cascais, ajudando-a ultrapassar a dor do afastamento abrupto de Almeida Garrett.
Quanto ao romance tórrido de Garrett e Jakiná, este teve a duração de uma quimera e muitas outras se seguiram na vida de Almeida Garrett. Foram seis meses, seis meses de profundo viver idílico, mas a chegada de uma donzela à vida social de Lisboa ditara o fim deste romance.
Tudo aconteceu durante um baile de debutantes, ela entrava irradiando paz, serenidade e muita, mas muita formosura. Trajava um vestido branco ornado de finas rendas Inglesas que cintilavam à luz dos candelabros do salão e deixavam antever o seu farto decote. Foi quanto bastou para que o coração vadio de Almeida Garrett se perdesse, mais uma vez de amor eterno.
sinto-me:

publicado por minimilk às 21:54
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